Aspectos de coesão textual na escrita de surdos: a formação das cadeias tópicas

Gláucia dos Santos Vianna

Resumo


Configuram uma das maiores questões geradas pela .surdez, o impacto sobre o desenvolvimento linguístico individual e suas implicações pedagógicas no processo de apropriação do Português escrito como segunda língua (L2). Considerando, portanto, que indivíduos surdos não apresentam, e não utilizam exatamente as mesmas ferramentas características de construção textual empregadas por um ouvinte, este trabalho visa refletir sobre o continuum de aprendizagem da leitura e da escrita percorrido por esses sujeitos e a crucialidade de ·sua automação. A relevância desse estudo não reside somente no fato de que a escrita se traduz como instrumento de comunicação ímpar em sociedades grafocêntricas como a brasileira, mas também como modalidade indispensável aos surdos no amplo acesso à rede de informação disponível e ao convívio social em um contexto bilíngue. Nesse sentido, o foco central desta pesquisa volta-se para a análise dos aspectos " ,,_ . " coesivos observados nas produções escritas de surdos, no intuito de investigar a maneira pela qual tendem estabelecer coesão e p rogres- ,., , . . ,,,, sao . top1ca em suas compos1çoes tão incompreendidas. O estudo dos nexos coesivos nos textos analisados e dos possíveis mecanismos utilizados para assegurar referencialidade e progressão se desenvolve a partir do conceito teórico de continuidade tópica descrita por Givón (1983) e de Cadeia Coesiva descrita por Antunes (1996). O corpus deste trabalho constitui-se de textos -produzidos por alunos surdos profundos, em estágios variados de automação do Português (L2), cuja fluência em Libras mostra-se evidente. Os resultados das análises comprovam que, embora as produções textuais apresentem certas limitações na ,., . estruturaçao narrativa, a presença de elementos coesivos em larga escala mantêm satisfatoriamente a coesão referencial e a progressão ; dos tópicos ativados no discurso. E preciso ser ressai tado, entretanto, que, diferentemente do que ocorre com usuários do Português como primeira língua (Ll), a escrita de surdos revela um diferente paradigma de aplicação de estratégias e ferramentas de coesão, as quais sofrem influências diretas do sistema subjacente e predominante da Língua de Sinais. Claramente revelam-se nos textos, tendências ao estabelecimento da coesão e da progressão por meio de cadeias coesivas bastante semelhantes às que são construídas no discurso em Libras, ressaltando que o mundo da linguagem escrita possui interfaces com a modalidade linguística visual e gestual da Língua de Sinais. Neste estudo, há a preocupação de sinalizar aos profissionais envolvidos no processo de letramento e ensino do português como L2 para Surdos, a urgência de se redimensionar o olhar sobre a escrita -desses sujeitos. Aspectos relacionados a possíveis interferências da Libras nas produções textuais de surdos e as implicações educacionais decorrentes dos resultados obtidos na pesquisa são igualmente discutidos.


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DOI: http://dx.doi.org/10.20395/re.v0i35.251

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